Encontraste-o caído no chão…

…que tantas vezes pisamos juntos. Junto à porta que deixavas sempre aberta quando sabias que eu estava prestes a chegar, e ainda mais próximo da carpete vermelha onde nos amámos, como que a fazer pandã com o que sentíamos. Imaginei-te então.

Entraste na sala iluminada a meia-luz pelo velho candelabro feio que dizias estar ali por valor emocional. Chutaste sem querer o envelope que te encontrava, como dizias sobre tudo o que nunca procuravas. Soubeste logo que era eu. E o saberes tão depressa quem seria, desconcertou-te. Ficaste a encara-lo até o vento frio da porta aberta te lembrar que estavas vivo. Foste busca-lo, como que a trazer-me para a superfície, a devolver-me o ar. Fechaste a porta. Sentaste-te. Seguraste-o como seguravas em mim naquele sofá quando eu desfalecia num prazer teu. Nosso. Tão meu. Pegaste na coragem que não usaste para me dizer que eu já não servia, e abriste o que nem colado ia, por sempre deixar livre o que a mim não pertence. Se as palavras se quantificassem poderia jurar que não te disse metade do que já me disseste a mim. Logo eu, malabarista das palavras. Mas pouco dizias no tanto que falavas. No conseguinte foste silêncio e aos teus olhos a carpete empalideceu.

Se abrisses o envelope terias sabido mais de ti. Iria passar à frente dos teus olhos o nosso breve desencontro, depois de descobrirmos que o nosso encontro é separado. Irias ver-te de novo envolvido no abraço de quem te queria bem e embrenhado na mentira que davas em troca. Irias descobrir-te no azedume de quem cria feridas e escava cicatrizas. Mas voltaste a guardar a coragem, foste busca-lo aos teus pés e asfixiaste-o para a lareira prestes a acender e a aquecer esse teu ego já quente.

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