És coisa de ter por casa.

És coisa de ter por casa. De arrumar um espaço onde parecia não haver espaço para mais nada nem ninguém – e dar-to simplesmente. És o nervosismo de primeira longa viagem, o destino mais desejado. És motivo para o “por favor, não perturbe.” numa porta fechada o dia todo. A vontade de sorrir o tempo inteiro. Não serves de desbloqueio quando o papel chama e grita que me quer ouvir, entendidos afirmam que a arte nunca vem da felicidade. Mas posso sempre esforçar-me, desafiar-me, envergonhar o mundo ao apresentar-te assim, tão bonito em mim. Posso sempre sussurrar-lhes para que apenas os bons ouçam o quão feliz ficamos aqui. Como quando entras, te pões descalço e me convidas para dançar só porque sim. Ou porque sabes que é na dança que me entrego e levo a vida ao de leve. Do jeito que me ensinas dia após dia até eu acreditar. Sem pressas, sem achar que a idade pesa e que o mundo amanhã pode acabar. Contigo já pouco importa se o domingo vem chuvoso, o que antes era triste hoje é só romântico. Perdemos a vergonha, vamos perdendo o medo, falamos de amor mesmo quando soa piroso – as gargalhadas existem para esses momentos. E para tantos outros que inventaste comigo. Desconfio que me fazes rir todos os dias, sim, todos os dias. Sabes a força que isso tem? Porque é dessa loucura que as palavras fogem, mesmo quando me pedes para te as dar. Dizem terem perdido o significado e esvaem-se na crença de não conseguirem descrever tamanha imensidão. Mas tu conheces-me, sou destemida, posso sempre tentar resgatá-las e pedir-lhes que não se assustem, que és coisa de ter por casa sem a porta ter que trancar. Suspiro. Peço-te um último sussurro: se eu voltar a escrever prometes ficar?

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