«Eu sei viver sem ti.»

Para quê mais rodeios? Disse-te assim com a mesma determinação com que aquecia as mãos na chávena quente. No café do costume onde em tempos dávamos as mãos e hoje dávamos um tempo. A janela protegia-nos do inverno mas vi nos teus olhos o quanto, naquele momento, te apetecia fugir. Não entendias, tu que me já me conhecias, não entendias como alguém pode amar tanto e dizer, ainda assim, que amor, só o amor, nunca é suficiente. Faltava-nos mais, deixamos de ser verão em todas as estações. Tudo era confuso. Estávamos num ponto tão ingrato que a inércia de ficar era tão forte como a de querer partir. E não saímos dali. Do mesmo café. Do mesmo inverno. Mas se eu sabia porque não ia? Foste perspicaz. Mas escolhi as palavras dos outros para me fazer chegar a ti. «Eu sei viver sem ti. Sei andar, comer, falar, ver um filme. Sei sorrir e nem é de mentira. Solto gargalhadas, conto piadas e estou rodeada pelos meus amigos o tempo todo. Leio livros, treino, faço amizades. Sou por inteira sem ti. Não existe nenhuma parte faltando, mas eu faço ela faltar. É que eu não preciso de ti para nada, mas quero-te pra tudo. Eis o grande problema.*»

*Excerto de Iolanda Valentim

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