«Gostava que te visses pelos meus olhos.»

Foi o pouco que consegui balbuciar no exato momento que o nosso olhar se cruzou. Sorriste mas não quiseste saber o porquê. Como nunca querias saber sempre que previas um elogio. Deixa-me recuar. Deixa-me contar a esse teu desinteresse aquilo que vi. Estavas absorta na cultura como sempre estiveste. Vestias camisa aos quadrados, aquela que te cobria as pernas, fingindo que não eras tão elegante assim. Mas como eras. Tinhas um jeito espontâneo que te fazia rir para o mundo sem lhe cobrares um único motivo. Ouvi-te sussurrar que a vida era aquilo – «tudo o que podemos levar na alma, o que não se paga nem se pega.» – e deste uma gargalhada por teres conseguido fazer das palavras melodia.

Entrei na sala de espetáculos e sentei-me mais próximo de ti. Brilhavas. Saberias disso? Penso que não. Mas quanta vontade tive de te poder dizê-lo todos os dias. Parece precipitado, dirão os desacreditados. Mas eles não te conhecem, pobres vidas. Estavas embrenhada na cultura mas no exato momento em que te permitiste olhar-me, disse:

– Gostava que te visses pelos meus olhos.

Não tinha muito mais a dizer-te. Eu soube, juro que soube, que ainda haveria de haver mais espaço nesta vida para nós dois. Cingi-me assim àquele momento em que te olhava. Depois de me olhares e não quereres saber mais. Vi-te cantar com o mesmo entusiasmo que fazias silêncio, perdida na tua introspeção. Quantas vezes ter-te-ás sentido incompreendida por quem não entende que essa bivalência é de quem respira inteligência? Tinhas a emoção à flor da (tua) pele, essa com um leve tom de canela. Os teus movimentos traziam-me o perfume que depressa passou a ser unicamente teu, e me lembrava que esse teu desinteresse passava a ser interesse meu.

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