Quando disseste que era para ser…

…eu não fiz caso. Continuei sentada na varanda, no final da tarde de um julho quente e perguntei se querias mais limonada. Dizia-te, lembro-me bem, que os jardins deveriam ser feitos apenas de flores coloridas, das que não perdem a cor no inverno que é quando mais precisamos delas. Não te deixaste ficar. Insististe que era para ser, eu resmunguei. Disse que não, que ainda não era hora, que ainda era cedo para o que chega sempre tarde na vida. Disse-te que preferia falar de flores. Reclamei como reclamo com tudo o que quero muito, com o quero tanto que é mais fácil negar para tentar baixar a expectativa. Mas tu não te deixaste ficar. Deixaste-me respirar, deste-me apenas a mão quando me querias o corpo, falaste de jardins quando querias falar da alma. E de todas as vezes que saíste daquela varanda dizias que era para ser(mos) – e eu resmungava – e tu davas-me flores coloridas. Não te deixaste ficar, ficando. Esperaste pelo inverno para me roubar o cinzento dos dias e mostrar que é nos dias frios que eu mais precisaria de ti, que mais me querias a mim. Trocamos a varanda pelo sofá e no final de uma tarde gélida de dezembro eu percebi que já éramos. Não aí, mas antes mesmo de algum dia eu achar que poderíamos vir a ser.

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