A miúda cresceu.

A miúda cresceu e isso assusta-te. A vida deu-lhe balanço e pela primeira vez na vida ela não pediu permissão para ir. Não lamentou se não fosses junto e isso assusta-te. Ela simplesmente foi, porque deixou de interpretar os teus sinais em função das carências que tinha e depressa percebeu que o teu dialeto é mais direto do que acreditava ser. Prova disso é que não foste junto. Simplesmente te deixaste ficar, assustado. Ela cresceu e quando se cresce deixamos de caber nos mesmos lugares, nas mesmas pessoas, na mesmice de algumas vidas. Transbordamos para lá das margens que nos impunham – decoradas com jasmim e laços de seda, como se de um presente se tratasse. Não é de presentes que as miúdas crescidas precisam, é de liberdade, futuros e telas em branco para ser o que quiserem, entre aguarelas e tons coloridos, sem que isso te tire menos brilho a ti. Talvez te tenha estendido a mão, mas tu não viste. Ninguém parte sem pequenos indícios. Há sempre um gesto, um abraço mais forte, um olhar ternurento de quem já sabe que vais querer ficar. São dialetos que só gente mais crescida consegue ler no tempo certo, e ambos sabemos que em diversos momentos da vida nem sempre somos todos do mesmo tamanho.

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