Como se esquece?

Sentei-me na mesa de café, antes da caminhada de domingo de manhã, e pedi o café forte que se tornou costume desde que me forçaste a sentar aqui sozinha. Desfolho literatura solta e paro no que escrevem os entendidos: “Como se esquece? Devagar.”* Releio. Mas quão devagar será? Um devagar de dias ou de meses? E se for anos? Como gostava que me prometessem que o esquecimento não é proporcional à intensidade do teu toque. Só assim garantiria que o devagar não seria o vagar de uma vida. No silêncio cru que nos separa, ainda tenho as memórias tão claras que basta fechar os olhos e ainda te vejo a entrar pela porta e a procurar por mim como quem apenas descansa quando me ouve dizer “bem-vindo, amor!”. A casa só era lar porque era nossa. Porque era nela que dançava sob tua alçada músicas que jamais ouvirias se não gostasses tanto de mim. O sofá só era ninho por já ter o formato dos nossos corpos enroscados no que passaria a ser para nós o máximo conforto. A cozinha só ganhava vida por dela fazermos o palco das melhores e piores experiências – eu inventava, tu jogavas sempre pelo seguro. O quarto só se assemelhava a uma nuvem porque não havia uma única vez que lá estivéssemos em que não visitássemos o céu. Sei de cor os pormenores, o teu champanhe preferido e todas as datas que festejávamos. É tudo tão denso que mesmo sendo devagar, pergunto-me por onde começo a esquecer-te. Pelo sorriso fácil ou pela roupa que facilmente deixavas espalhada no chão? Pelo abraço apertado ou pelas portas do armário que teimavas em deixar abertas antes de te deitar? Pelas conversas de final de tarde ou pelas discussões a meio do dia? Tudo me faz falta, fazes-me falta… como saber se te esqueço pelo que me foste ou pelo que me fizeste sentir? Pelo primeiro beijo ou pelo último orgasmo? Ainda te lembras do último clímax ou já te esqueceste? Como se esquece? Tu que o fizeste tão bem comigo, bem que me podias ensinar.

Sinto o olhar dos velhos do café, mais sábios de emoções do que os julgavas, dizer-me “vá menina, brilhe, ele já a esqueceu”. Levanto-me e deixo o café frio junto à literatura solta e triste. Chegou a hora de deixar antigos costumes. Vou esquecer-te, eventualmente surgirá um início (do fim).

*Miguel Esteves Cardoso

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