Como seria?

Se a cumplicidade se medisse, criaríamos a escala de uma outra vida. O real deste mundo é tão pouco para nós. Se as metades existissem, se não fossemos inteiros, encaixarias na perfeição no meu corpo, bem depois da minha alma. Reinventaríamos os contos de fadas, o amor e uma cabana, o era uma vez. Se os medos não fossem veneno, talvez não nos tivessem matado. Ninguém soube, ninguém nos fez o luto. Nem nós, que achamos o antídoto tarde demais.

Posso despedir-me de ti assim? Com a aparente serenidade das palavras que escondem o grito? Voltaste só para dizer que já ias. Para! Não queiras que te resgate. Quem me resgata a mim?

Abortamos o amor. Não lhe demos, tão pouco, oportunidade para ser trágico. Não o quisemos simplesmente, e isso pesa-nos nesta consciência eternamente refém da dúvida do talvez, do “como seria?”. As mãos que não se chegaram a agarrar, os abraços que não chegaram a ser casa, as danças que não guardamos para nós, as guerras de almofadas que não acabaram entre lençóis, os sábados à noite que não se tornaram domingos de manhã… como seria? As viagens que não marcamos, a Itália que não conhecemos, o sol que não vimos nascer, as estrelas que não chegamos a contar, as pazes que não chegamos a fazer, os beijos que embora nossos não chegamos a roubar… como seria? Como seria se deixássemos o amor acontecer? Ainda adoraríamos a loucura um do outro? Ainda nos quereríamos? Ainda nos fotografávamos acreditando que uma vida longa merecia mais do que as nossas memórias?

Vou despedir-me de ti assim. Porque a certeza de que podíamos ter sido luz não me ilumina o caminho em que já não estás. Tudo se tornou mais escuro, mas ninguém disse que na noite a magia não acontecia. Vai! Um dia, quem sabe, a vida nos resgate e nos mostre como seria.

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