Diário de Bordo I

Fiz a mala à medida que me desfazia de ti. Fechei-a com o nó na garganta de quem ainda não acredita na tua ausência. O som do zíper ainda ecoa na minha cabeça como o silêncio que fizeste quando disseste que preferias ficar. Faltou o som das palavras que escreveste, faltou o olho no olho, o cara a cara, a mão que logo se veria se largava ou prendia. À distância restam apenas silêncios – sempre. Não era suposto planos não planeados falharem, mas quem os mandou tomar como garantidos?

(Suspiro)

Passaram-se três horas. Estou longe. Cheguei a um porto seguro escolhido numa última hora, num derradeiro acaso de quem não se resigna ao fracasso. Vim. Não sou de ficar. Trago comigo memórias e alguns vestidos que me dizias cair bem. Queria agradar-te ainda sem saber que não te fazia diferença nenhuma. A ingenuidade faz-nos também mais bonitas – olha como este me assenta tão bem. O resto da bagagem deixei aí, não me faz falta. Quis vir de mala vazia, sem qualquer impedimento a um fado novo.

(23:32)

Estou cansada, mas nunca me senti tão livre. Não era suposto a casa estar vazia de ti e a playlist tão surda como esta. Ouço apenas aquilo que escrevo ao ritmo de um vinho que me ensinaste a beber no tempo em que dizias que era até nós querermos… enchi, ainda assim, um segundo copo enquanto aprecio como foi fácil e rápido não quereres mais. O meu esvazia-se por amor às causas perdidas. Um brinde a ti.

Comentários

  • Setembro 24, 2018
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    Celeste Marinho

    Adoro ler-te.
    Continua a escrever assim, com alma!
    Identifico-me tanto com o que escreves, com tudo o que tentas transmitir.
    Ás vezes passo por cá, a ver se tens novidades e sempre que as há , leio e volto a ler o texto.
    Continua a apostar em ti, a apostar na escrita, acho que é por ai que passará o teu futuro.

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