Diário de Bordo II

Poucos são os que sabem, muitos os que sentem na pele, mas conhecer um lugar novo com alguém é arriscado. Não vai haver vez em que lá voltes que não te lembres dessa mesma pessoa. Aceitar levar-te comigo foi um risco assumido de quem já não mede as consequências e, tendo consciência disso, já não teme a força das memórias. O destino foi mais precavido e deu-me o processo invertido. Nas lembranças já não te tinha pela cidade, mas na cidade imaginei como seria ter-te lá. Nas escadas onde já me sentava cansada, na esplanada onde teria sorrido para ti, junto ao mapa que eu não sabia ler, nos palácios onde me senti rainha, nos espelhos onde só conhecia o meu reflexo, nos pontos mais altos dos jardins que elevavam apenas os mais corajosos. Imaginei-te, mas não guardei memória. De todas as vezes que aqui voltar vai ser de mim que me irei lembrar e vagamente – que eu acredito na complacência do tempo – de um segundo copo de vinho vazio. Ao olhar para essa cena de filme romantizada gostarei ainda mais de mim pela destreza de ter vivido um sonho. E torno-me assim mais capaz, mais independente, mais corajosa, mais intocável. Pois como dizia o poeta* “ser livre é, frequentemente, ser só”.

 

*W. H. Auden

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