Forma de gente.

Não sei ao certo se aquela nuvem tinha forma de coisa ou de gente, mas partilhar um céu nublado com o melhor amigo tinha tanto de divertido como de melancólico. Acabávamos sempre ali quando lhe ligava e pedia para que procurasse comigo um lugar que dissipasse a tristeza – ele nunca negava. Pedia-lhe para conduzir sem rumo mesmo sabendo qual era o destino – ele fingia ser sempre por acaso. Nesse dia não foi exceção. Nunca soube pedir. Promovi-o a melhor dos melhores no momento em que eu dei sugestões e ele entendeu as perguntas. Simples assim. Era então nessas viagens a bom porto que ele ouvia o que eu silenciava para o mundo. Não tivesse eu de respirar e chutava as vírgulas para canto. Sorte a dele, graças a elas, ainda ia entendendo e acompanhando o que eu dizia. Pedia-me tantas vezes para ter calma, que tudo aconteceria quando eu menos esperasse. Eu revirava os olhos, sábia de toda a teoria, e explicava-lhe que a calma é um super poder estando eu longe de ser uma super heroína.

Ria-se.

– Não tens emenda.

Ria-me.

– E eu lá sou de remendos?

Estacionámos. Cheirava a mar, mas o céu estava nublado. O vento era tão pouco que optamos por sentir essa raridade com areia no pé. Passeamos descalços, tropeçamos em mais alguns desabafos, até nos sentarmos a encarar as nuvens.

(Suspirou)

– Sabes miúda, nos tempos que correm eles não gostam de coisas muito difíceis.

(Hesitei)

– Pois, mas eu gosto…

(… ) Acho que aquela tem forma de gente.

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