Passado.

Há dias em que me adias. Fazes silêncio, não admites, deixas-te camuflar no tempo que é sempre escasso. Há dias em que não te faço diferença, em que já não sentes o meu abraço, em que já não retribuis o jantar que cancelaste. Já não ligas porque uma mensagem chega. Já não mandas uma mensagem porque nos veremos em breve. Mas o breve torna-se longe demais. Há dias em que o esforço é só meu porque me coloco no teu lugar e tento arranjar fundamento para o que não tem. Até que em minutos de sanidade percebo que o meu bem querer não compensa o teu não querer saber. O desinteresse tem silenciador, mas mata a queima-roupa. Deixa moribundo a jeito em que eu te olhava, a batida de coração que acelerava, a vontade absurda de te fazer sorrir. O desinteresse faz-te perder presentes mais felizes do que muitos passados teus. Mas tu continuas lá numa luta que ninguém pode travar por ti, numa batalha que já toda a gente percebeu que não vale a pena ganhar. Mas toda a gente não és tu. E tu estás lá, não estás aqui.

Meu amor, preciso de te segredar que há dois tipos de passado. Aquele que nunca esqueces, mas que sabes que não queres, e aquele para ao qual na primeira oportunidade voltas. Ao primeiro eu poderia fazer frente, ao segundo nem tão pouco quero presenciar. Sou do futuro, não acredito que quem nos passa para o pretérito imperfeito do verbo valha assim tanto a pena se tornar num gerúndio. Mas nem todos somos de letras, talvez te prefiras dividir. Esquecendo que há quem não se contente com metades. Sou inteira e não preciso que me completes, preciso que me somes e nos elevemos a outro grau. Talvez não queiras, talvez não possas e está tudo bem. Só não me adies. Pois é por todos os dias em que me adias, que decidi dizer-me adeus.

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