Um ano depois.

Sempre acreditei que podemos ser tudo aquilo que quisermos. Basta querer mesmo, querer muito e ter tanto de persistente como de paciente. Ter esta crença numa cultura por vezes tão conformista, ou até pessimista, criou em mim a única superstição que tenho: “Don’t tell people your dreams. Show them”. Talvez por isso vi tanta surpresa nos rostos quando disse pela primeira vez que ia nascer um livro Felicity. É que nessa altura já não era um sonho, era uma realidade. Tinha conceito, tinha nome e tinha sido aceite pelo mercado da literatura. Aceitaram-no “por ser diferente” e mesmo que mais ninguém o apreciasse eu sabia que pelo menos tinha sido aquilo que eu quis que fosse: um desafio ao que é habitual.

Há um ano atrás assumi ao mundo o que escrevi, e cada palavra deixou de ser só minha para ser dele, para ser vossa. Nessa noite, onze de novembro de dois mil e dezassete, encheram-me de sorrisos e abraços apertados que trago comigo. Dei voz a um projeto em que acredito e falei com uma plateia que tanto me encheu de orgulho. Nenhum discurso seria tão maior quanto o meu obrigado. Foram imensas as perguntas que surgiram depois, as especulações, os porquês sem resposta sobre o tanto que se tinha escrito no “Vão Dizer Que Foi Por Amor”. Sei que o lancei no momento certo por todas essas dúvidas não me abalarem, por reconhecer que é o processo natural da exposição e ter a certeza que o que fiz foi por amor sim… mas pelo sonho, pela arte e, acima de tudo, pelo projeto Felicity.

Há um ano atrás, no começo de uma noite chuvosa e fria, eu fui genuinamente feliz. O que ninguém sabe é que foi um ano de luta interior, em que me perguntei vezes sem conta se seria mesmo certo lançar tudo o que tinha escrito, tantas vezes às escondidas, sabendo que a subjetividade do leitor poderia virar-se contra mim. O que ninguém sabe é que há apenas um único texto nesse livro que me saiu da alma, todos os restantes brinquei com a ficção. A literatura é também divertida por isso, pela liberdade de começarmos numa verdade e na frase seguinte darmos asas à imaginação. O que ninguém sabe é que na véspera dessa noite o stress levou-me ao hospital, e que na manhã do dia onze houve quem achasse que talvez eu não conseguiria. E que também houve quem não acreditasse quando pedi ajuda para levar o meu nome um pouco mais longe, levando tantas vezes com o silêncio como resposta. E que contra a expectativas de muitos a sala encheu. O que ninguém sabe é que as cores que eu vestia fizeram pandã com a capa do livro por pura coincidência, e que só uso baton vermelho nas noites em que me encho de esperança. Optei por roupas largas para esconder o peso que esse ano me fez perder, mas ninguém sabia – apenas desconfiavam quando me abraçavam. O que ninguém sabe é que não faço revelações para me lamentar, faço-as porque também é importante mostrar o que está por trás do fogo de artificio. E que ainda assim é possível ser genuinamente feliz.

Nunca mais fui a mesma desde então, e outros sonhos se criaram… que serão divulgados no tempo certo.

Há um ano atrás pedi inspiração e escreveram-me dedicatórias. Não houve uma única palavra que não me tocasse. Que este projeto Felicity continue a ser sempre isto – “the place where you can be what you want.”

Obrigada.

Felicity

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