Um dia.

Um dia falo-te do que não chegamos a ser. De tudo o que idealizámos, mas não realizamos sem ter, tão pouco, quem culpar. Um dia falo-te ao ouvido, sussurro-te que ambos fomos vítimas do silêncio que nos ensinou, hoje, a falarmos tudo mesmo que às escondidas. O mundo não nos entenderia. O mundo nunca nos entendeu. Éramos demasiado atribulados, unidos pelo mesmo caos que nos separou. Não soubemos ser melhor, ou não pudemos, ou simplesmente não era hora de o ser. Um dia falo-te, não daquilo que vivemos, mas do que poderíamos ter vivido. Convido-te a voar comigo, para pousarmos num jardim qualquer e, ao relento, apresento-te cada constelação que me ouviu quando partiste. De sorriso fácil, e de olhos postos no céu, não te deixarás ficar. Desafias-me dizendo que as estrelas são ornamentos para as noites loucas, não para enfeitar a tristeza. Provocas a minha imaginação que bate de frente com a tua e, em segredo, se vão alimentando de ilusões. Somos pura diversão. Mas somos, e sermos já é tanto para mim. Um dia conto-te como teria sido se tivesses fugido comigo, nem que por meras horas. De como voltaríamos a sentir o toque que anos não farão desvanecer da nossa pele. Fomos mais do que corpos, fomos uma descoberta profunda. Desenho, entre rascunhos desajeitados, duas linhas paralelas como um retrato de nós. E poeticamente te convenço que elas são a personificação de quem sempre andará lado a lado sem nunca se tocar. Podíamos ter sido tanto, talvez a beleza esteja mesmo no “se”. Se fossemos, se deixássemos, se quiséssemos. Um dia faço um chá e, enquanto aqueço a alma, falo-te sobre isso… mesmo que deixe saudade. Vai deixar, juro que vai.

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